Mulheres nas artes através dos tempos

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03- Janeiro - 2019

Mulheres nas artes através dos tempos

A Feambra publica artigo do artista plástico Walter Miranda, colaborador desse veículo. 

 

Mulheres nas artes através dos tempos

 

por Walter Miranda*

 

Embora tenha prometido em meu texto anterior abordar as mulheres nas artes durante a Antiguidade e a Idade Média, devido à riqueza do tema e à economia de espaço, abordarei nesse capítulo apenas a Antiguidade.

 

Pinturas em paredes e painéis eram comuns na Grécia antiga. Infelizmente, essas obras não chegaram até os dias atuais. Existem poucas fontes acadêmicas da época que testemunham esse fato, mencionando inclusive alguns nomes de artistas e breves relatos sobre suas vidas e trabalho. Assim, as parcas informações que temos hoje foram obtidas de textos antigos remanescentes, imagens ou mesmo de textos que mencionam autores antigos.

 

Em algumas coleções de museus, existem vasos gregos antigos representando mulheres e homens em ateliês pintando juntos outros vasos. Dois afrescos encontrados em Pompéia atestam que, definitivamente, as mulheres exerciam a atividade de pintoras. Uma das imagens mostra uma artista pintando um quadro usando como referência uma estátua e a outra imagem mostra uma pintora usando um cavalete.

 

As cidades romanas de Pompéia e Herculano também possuem vários afrescos que nos possibilitam entender o universo cultural das duas civilizações e que a arte romana sofreu forte influência da arte grega. Entretanto, é extremamente raro encontrar informações sobre a atuação profissional das mulheres no campo das artes na Antiguidade e certamente muitas artistas importantes jamais serão reconhecidas por não serem mencionadas nas fontes que chegaram até os nossos dias.

 

Minha pesquisa sobre o tema se restringe à cultura ocidental, entretanto, devido à quantidade de informações documentais e sua influência cultural sobre a Grécia, é possível abranger superficialmente o Egito.

No Egito antigo, a mulher tinha mais liberdade do que em qualquer outra civilização da época. Muitos relevos, pinturas e manuscritos mostram maridos e esposas exercendo atividades em conjunto. Ela poderia gerenciar os negócios da família, se divorciar e exercer diversas atividades profissionais, religiosas e artísticas, entre elas a dança e a música (cantando ou tocando instrumentos musicais), porém não encontrei nenhum relato ou imagem sobre a existência de pintoras ou escultoras. A pesquisa continua.

 

Na Grécia antiga, era comum aos artistas apresentarem suas obras pintadas em painéis em competições artísticas e, assim como nos dias de hoje, geralmente, os trabalhos eram comprados pela classe rica e pelos governantes. A fonte de informações sobre essas competições é a enciclopédia de 37 volumes intitulada Naturalis Historia, escrita por Plínio, o Velho (Caius Plinius Secundus, 23 ou 24-79 d.C.). Plinio situa cronologicamente essas competições citando os números das Olimpíadas. Em sua obra, ele menciona brevemente sete ou oito mulheres pintoras, mas essas menções nos servem de referência para saber da existência delas e sua competência profissional, como veremos a seguir.

 

A primeira artista mencionada por Plínio é Cora de Sicião (c. 650 a.C.). Aprendiz e filha do ceramista Butades, ela é mais conhecida como a autora de um desenho que se tornou indevidamente referência para pintores, durante séculos, como sendo o momento da invenção do desenho ou mesmo da pintura de retratos. Plínio conta que Cora se enamorou de um aluno do pai dela e que na véspera de uma longa viagem dele ao exterior, ela desenhou com carvão, na parede do ateliê, o perfil do rosto do namorado projetado por uma luz. Ao notar o desenho feito pela filha, Butades modelou em argila o rosto do rapaz, criando assim o primeiro relevo em argila. O relevo ficou preservado na cidade de Corinto até ser destruído durante a invasão da cidade pelos romanos em 146 a.C.

 

Timarete ou Thamyris (c. 400-500 a.C.) foi uma pintora grega, filha do pintor ateniense Micon, o Jovem. De acordo com Plínio, ela desprezou os deveres femininos para exercer a profissão do pai. Essa informação nos dá embasamento para concluir que Timarete tinha uma personalidade forte e feminista, pois, na sociedade em que ela vivia, a mulher tinha grandes limitações para exercer atividades profissionais e sociais. Também podemos concluir que ela era muito respeitada como pintora porque fez um painel que se tornou famoso na época, da deusa Diana para a cidade de Éfesos (cidade que reverenciava Diana) e que Plínio considerou como o painel mais antigo existente até então.

 

Aristarete, mencionada por Plínio em sua resumida lista de pintoras, era filha e aluna do pintor grego Nearkos. Nada se sabe sobre a época de atividade tanto do pai, quanto da filha. Devido a uma de suas pinturas que representa Esculápio ou Asclépio, deus grego da medicina, e a algumas obras de Nearkos, citadas por Plínio, pode-se concluir que ambos pintavam temas mitológicos.

 

Irene, outra pintora citada por Plínio, era filha e aluna do pintor Clatino. Também não sabemos a origem e a data de nascimento de ambos. Para piorar ainda mais a insuficiência de informações, existe uma polêmica acadêmica sobre produção artística de Irene devido a duas conclusões baseadas em interpretações de regras gramaticais no escrito de Plínio. Para alguns estudiosos, Plínio afirma que Irene é autora de cinco obras, a saber: uma jovem (cuja obra ainda se encontrava na cidade de Elêusis na época de Plínio); a ninfa Calipso; um homem velho; o prestidigitador Teodoro e a dançarina Alcisthenes. Entretanto, outros estudiosos acreditam que Calipso é o nome de outra pintora cujas obras são: um homem velho, o prestidigitador Teodoro e a dançarina Alcisthenes. Ou seja, não sabemos ao certo se houve duas pintoras (Irene e Calipso) ou apenas uma (Irene).

Helena do Egito (c. 350 a.C.) é uma das duas pintoras da Antiguidade que não foram mencionadas por Plínio. Contudo, Fócio I (c. 820-891), patriarca de Constantinopla (também conhecido como São Fócio), escreveu em sua obra Myriobiblion que Helena era filha do pintor Tímon do Egito. Nada se sabe sobre ela, porém Fócio afirma que ela pintou uma cena da vitória de Alexandre o Grande (353-326 a.C.) sobre o rei Persa Dario III, durante a batalha de Isso. Alguns acreditam que, posteriormente, foi feita uma cópia em mosaico de sua pintura, encontrada no piso de uma casa aristocrática de Pompéia, chamada de casa do Fauno. Entretanto, existe a possibilidade de que o mosaico tenha sido baseado na obra do pintor grego Filoxeno de Eretria (sec. IV a.C.), pois, em outra parte da Naturalis Historia, Plínio cita que Filoxeno pintou uma obra com esse tema sob encomenda de Cassandro (c. 350-297 a.C.), um dos generais de Alexandre e posteriormente rei da Macedônia.

 

Outra pintora da Grécia clássica não mencionada por Plínio é Anaxandra (c. 220 a.C.), filha e aluna do pintor grego Nealkes, um pintor de temas mitológicos e cotidianos. Sabemos de sua existência porque ela foi mencionada no século II pelo teólogo cristão Clemente de Alexandria (c.150-c.215) em um texto cujo título pode ser traduzido como “A mulher, assim como o homem, é capaz de perfeição”. Clemente não aprofunda seus comentários sobre Helena e apenas cita como fonte o trabalho de um estudioso do século I, Didymus Chalcenterus (c . 63 a.C. - c. 10 d.C.).

 

Iaia (c. 110 a.C.), também conhecida como Lala, Maia e principalmente como Marcia, foi uma pintora nascida na cidade de Cízico (atual Turquia) dominada pelos gregos e depois pelos romanos. Plínio menciona que ela pintava usando pincéis e também esculpia em marfim. Pintou vários retratos de mulheres e painéis em Roma e um de seus trabalhos mais comentados em vida foi um grande painel representando uma velha. Também ficou conhecida por toda a Idade Média a menção feita por Plínio sobre um autorretrato dela olhando-se em um espelho e cuja cena foi representada posteriormente por alguns artistas da Idade Média. Plinio também afirmou que nenhum pintor era mais rápido em relação a ela e seu talento era tamanho que seus trabalhos eram vendidos a preços mais altos do que os dos pintores concorrentes retratistas. Curiosamente, ela permaneceu solteira por toda a vida, fato que nos permite imaginar que não se submeteu ao machismo que imperava em sua época e que poderia interromper sua carreira.

 

Por fim, Plínio menciona outra pintora, Olimpia, mas afirma apenas saber que ela teve um aluno chamado Autobulus. Por isso, além de seu nome, nada sabemos sobre sua história pessoal.

 

Dando continuidade a essa instigante epopeia feminina, em meu próximo texto, abordarei a participação da mulher nas Artes durante a Idade Média. Até lá!

 

*Walter Miranda é artista plástico e professor (www.fwmartes.com.br). É o atual presidente da Associação Profissional de Artistas Plásticos de São Paulo (APAP).