Notícia

30- Agosto - 2010

Museu e comunidade: a construção da identidade

Entrevista com Angélica Fabbri e Jorge Rizek

 

O museu pode conquistar sua comunidade e envolvê-la para que se sinta parte dele. Também pode ser destaque turístico em sua cidade ou região. Para falar de sua experiência à frente da Associação Cultural de Amigos do Museu Casa de Portinari - ACAM Portinari, entidade responsável pela gestão de sete museus no interior paulista, a Feambra ouviu sua diretora, Angélica Fabbri. Já para falar do processo de municipalização da Casa de Cultura Paulo Setúbal, ouvimos Jorge Rizek, secretário municipal de Cultura, Turismo, Esportes, Lazer e Juventude - Prefeitura de Tatuí.
 Feambra - Como construir a identidade entre o museu e a cidade, seus habitantes?
 
Angélica Fabbri - O Museu Paulo Setúbal foi profundamente modificado em sua própria dinâmica. Houve uma valorização do prédio, de forma a aproveitar o imóvel e mostrar seu significado para a cidade. O objetivo é que o espaço se torne representativo para Tatuí, explorando os aspectos culturais, sociais e econômicos do município. A nova exposição irá contemplar alguns recortes da história de Tatuí. O subsolo será dedicado a contar as participações de tatuianos em conflitos armados e as curiosidades do acervo do museu. O pavimento superior mostrará a formação da cidade, os movimentos populacionais, os primeiros habitantes, os colonizadores e os conflitos gerados por eles, além de registrar a presença dos tropeiros na região. No térreo, a vida e obra do escritor e jornalista Paulo Setúbal, tatuiano ilustre no cenário cultural, também poderá ser apreciada pelos visitantes.
 F. - De que forma se deu o envolvimento dos profissionais na “construção” do museu?
 
A. F. - Os profissionais responsáveis por trabalhar o conceito do museu fizeram um mergulho na origem de Tatuí, para descobrir como se deu a ocupação do território, quais as forças motrizes da economia e a participação de seus moradores em episódios da história nacional, como os conflitos armados, entre outros aspectos da constituição da cidade. Também foi necessário se debruçar sobre a história do escritor Paulo Setúbal para descobrir em detalhes quem é essa figura que dá nome ao museu e qual sua contribuição para a literatura brasileira. Foi feito, ainda, um levantamento das coleções que fazem parte do acervo de modo a delinear a exposição de longa duração e orientar a montagem de eventuais mostras temporárias. Do início ao fim, o objetivo da construção conceitual do museu foi estimular a reflexão sobre o passado da cidade e promover um debate sobre os caminhos que ela poderá seguir.
 Feambra - Poderia nos dizer algo sobre o plano museológico e sua importância para a profissionalização?
 
A. F. - A publicação dos planos museológicos para os museus do interior, inédita, visa a nortear o planejamento das diretrizes de trabalho para o período 2010/2013 e a requalificação das unidades. Esses planos serão distribuídos para os municípios do Estado e também para museus, instituições e entidades da área museológica em todo o País, de modo que possam servir de referencial e fonte de pesquisa para profissionais do setor, professores, estudantes e para o público em geral. Conforme as políticas públicas da Secretaria de Estado da Cultura, a ACAM Portinari produziu um plano museológico específico para cada unidade. Entre seus principais itens, está o estabelecimento de Visão, Missão, Valores e Objetivos, além das linhas conceituais e programáticas para cada instituição, segmentadas em áreas distintas, porém integradas, como Programas de Comunicação Museológica, Salvaguarda e Documentação, Avaliação Integrada, Gestão e Segurança Integrada.
 F. - Poderia nos fazer um breve relato da história da Casa de Cultura Paulo Setúbal? Qual sua importância para o município?
 
A. F. - Construído em 1920, o prédio da Praça Manoel Guedes foi inicialmente projetado para abrigar uma cadeia e, posteriormente, sediou o fórum da cidade. Passou por várias reformas, mas seu projeto inicial foi sempre mantido. A Casa de Cultura Paulo Setúbal foi instituída em 1962 e, pouco depois, foi transferida para o prédio atual. O Museu Histórico de Tatuí foi criado em 1966 e subordinado à Casa de Paulo Setúbal. Dois anos depois, a gestão do espaço cultural foi transferida para a então Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo, hoje Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, e administrada pela Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico (UPPM). O museu é um dos principais pontos turísticos do município de 107 mil habitantes, conhecido como a “Capital da Música”. Em seu acervo, abriga objetos pessoais e obras de Paulo Setúbal, escritor brasileiro mais lido nos anos 20 no país. Entre as peças que podem ser vistas pelos visitantes, está o fardão vestido por Setúbal em sua posse na Academia Brasileira de Letras.
 Feambra - O que podemos contar dos outros seis museus que poderia servir como exemplos de identidade e de envolvimento da comunidade?

A.F. - Cada museu tem sua especificidade, mas, em comum, buscam se aproximar da população com projetos socioculturais. O relacionamento entre o Museu Casa de Portinari e a comunidade de Brodowski, por exemplo, foi case no Encontro Brasileiro de Palácios, Museus-Casas e Casas Históricas em 2009. Neste ano, a instituição implantou as oficinas itinerantes que levam aos bairros da cidade atividades artísticas e exposições. O museu também participa de campanhas na área da saúde, como o Dia Nacional de Busca de Diabates, e promove a festa italiana “Piazza della Nonna” reunindo barracas de comida típica comandadas por grupos de terceira idade e clubes de serviço da cidade, com a renda revertida para essas instituições. Mesmo fechado para reforma, o Museu Índia Vanuíre, em Tupã, promove diferentes atividades para os moradores da cidade e região. Todos os meses, alunos de escolas públicas e particulares da cidade participam de palestras e oficinas temáticas. Outra ação de destaque é realizada na Semana do Índio, em que os alunos das APAEs (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) da região ganham um dia de visitação, com brincadeiras indígenas e monitoria, só pra eles. Em Taubaté, o Museu Monteiro Lobato incentiva a leitura e as artes na programação para diferentes idades. A partir deste mês, os personagens do Sítio do Picapau Amarelo visitarão escolas públicas de Taubaté e região, levando um pouco mais da magia lobatiana para alunos de 3 a 15 anos.
 
F. - Como foi o processo de municipalização?
 
Jorge Rizek - O museu passou por duas reestruturações por meio do projeto museológico da Secretaria do Estado da Cultura. A partir de 2008, passou a ser administrado por uma Organização Social, a Associação Cultural de Amigos do Museu Casa de Portinari. No final daquele ano, foi assinada a ordem de serviço para obras de modernização e readequação dos espaços, com instalação de elevador e medidas de acessibilidade, no valor de R$ 724 mil, pelo Governo do Estado de São Paulo. O acervo foi transferido para outro imóvel para ser higienizado e devidamente catalogado, enquanto o prédio passava pela reforma do forro, piso, telhado, iluminação, banheiros, rampas e elevador para maior mobilidade do público, conforme as normas vigentes. Essa reforma já foi finalizada neste ano e o prédio começará a receber o mobiliário e acervo. Paralelamente à reforma, aconteceu o processo de municipalização, com inúmeras reuniões entre o prefeito Luiz Gonzaga Vieira de Camargo, representantes da Secretaria de Estado da Cultura e da Secretaria Municipal de Cultura para o andamento dos ajustes e parcerias. Em dezembro de 2009, foi realizada uma audiência pública na Câmara Municipal para análise e decisão da proposta de doação do acervo e cessão de uso do imóvel da Casa de Cultura Paulo Setúbal, pelo Governo do Estado, com a participação do prefeito, de membros da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico da Secretaria de Estado da Cultura, vereadores, funcionários da Secretaria Municipal de Cultura e membros da sociedade civil tatuiana.