Notícia

12- Abril- 2010

Entrevista: Rafael Raddi fala de planejamento cultural

Falta de políticas culturais atrasa desenvolvimento

Conselheiro da Feambra e diretor presidente do Instituto Plano Cultural, Rafael Raddi começou a se interessar pela área cultural fora do Brasil. Depois de estudar e trabalhar por muitos anos no exterior, trouxe para cá conhecimento e experiências que contribuem para o desenvolvimento de projetos culturais. Entre os cases de sucesso de seu instituto estão a assessoria ao governo do Estado de Minas Gerais na criação do Fundo Estadual de Cultura e o contrato com a CNI e o SESI na criação de uma cartilha para facilitar empresas e produtores culturais na elaboração e viabilização de projetos em turnê com a utilização de leis de incentivo nas esferas federal, estadual e municipal. Confira trechos da entrevista exclusiva concedida à Feambra:

Feambra: Como começou a se interessar em trabalhar com cultura?

Rafael Raddi: Isso foi no meio da década de 80, ao viajar para a Alemanha. Havia sido aprendiz na execução de molduras artesanais e uma artista me ofereceu seus quadros para que eu os vendesse. Aos 22 anos, vi que tinha de oferecer algo diferente para me destacar em uma cidade que tinha 70 galerias, Munique. Decidi, então, montar um atelier-galeria, onde os artistas podiam pintar, expor e vender suas obras.

F.: De que forma conseguia manter a galeria?

R.R.: Parte dos recursos obtidos na venda das obras ia para pagar o aluguel e outra parte era destinada ao artista. Além disso, resolvi fazer algo com a comunidade - pedia patrocínio para as cervejarias locais, que imprimiam os convites e ofereciam seus produtos nas vernissages. Aos poucos, vi que precisava aprender mais e estudei História da Arte, para saber mais sobre o produto com que eu trabalhava, além de Economia e Ciências Políticas, para saber a linguagem de industriais e empresários, meus interlocutores.

F.: Como conheceu o trabalho da Feambra?

R.R.: Começei a conhecer a Feambra há alguns anos, ao ver a realização do projeto "Adote um Monumento". Achei o projeto da Feambra consistente, de unir a necessidade de revitalizar os monumentos com a iniciativa privada, já que a iniciativa pública não tomava conhecimento ou não sabia como gerar mais recursos para a preservação dos monumentos. Vi que a entidade não era um clube elitizado, mas uma federação interessada em assessorar museus públicos, privados ou mistos a se integrar à participação social.

F.: O que mais chamou sua atenção quanto às diferenças de tratamento destinado ao setor cultural aqui e na Europa?

R.R.: Vi que o museu não é visto lá fora como é aqui, como uma casa em que se amontoam coisas velhas, mas sim como uma coletânea do testemunho de um tempo vivido por uma sociedade. Com as mudanças dos últimos anos, vivenciei uma integração muito forte entre os países europeus, o impacto do patrocínio cultural na sociedade para a construção de uma identidade européia. Trabalhei na Comissão de Cultura e Mídia do parlamento alemão e pude acompanhar o movimento de construção e fusão de leis que tratavam de cultura no processo de integração com os países membros.

F.: Você pode dar exemplos desse movimento de integração?

R.R.: O Tratado de Maastrich, o Tratado da União Européia firmado em 1997, previa a preservação da identidade cultural de cada país e a promoção de circulação de material entre eles. Foram criados programas culturais de integração, estabelecendo diretrizes para isso, que depois se consolidaram no projeto "Cultura 2000". Um desses programas, por exemplo, foi chamado de "Caleidoscópio" e consistia na realização de exposições itinerantes com a participação de três países. Percebi uma integração entre sociedade, governo e empresas e a população interagindo para a formação de uma nação.

F.: O que detectou no setor de cultura ao voltar para cá?

R.R.: Ao voltar para cá, em 2001, encontrei um cenário de falta de ordenamento, de políticas culturais que alavancassem o desenvolvimento artístico de ordem na integração social. Projetos culturais aprovados pela Lei de Incentivo não encontravam patrocinadores porque as empresas não viam como a cultura poderia contribuir para sua imagem frente à sociedade. 

F.: O que pode trazer para o Brasil de todos estes anos de experiência no exterior?

R.R.: A situação do Brasil em relação à cultura só poderia melhorar com a elaboração de dados, que aqui não estavam organizados. Então, surgiu a idéia de fundar o instituto Plano Cultural, em 2003, para disponibilizar informações e instrumentos que pudessem contribuir para o desenvolvimento dos mecanismos de incentivo, do encontro entre a iniciativa privada e os projetos culturais. Com estes dados, podemos desenvolver projetos consistentes e viáveis. Para o Distrito Federal, por exemplo, fizemos um levantamento do impacto dos museus no setor econômico. Se há uma exposição de arte, sabemos o quanto isso gera na rede hoteleira, em restaurantes, no segmento de transportes, entre outros setores, as assim chamadas contas satélite. A cultura cria empregos e gera renda. Vejo que a Feambra, atualmente com uma abrangência maior de atuação, é parte importante nesse novo cenário de desenvolvimento cultural. Um exemplo é a assessoria jurídica que presta aos museus para formar sua associação de amigos.  

F.: Por sua vivência no exterior, o que pode dizer a respeito da importância da associação de amigos de museu, conceito bem consolidado lá fora?

R.R.: A associação de amigos tem de trabalhar para ajudar o museu e colaborar para alcançar os objetivos traçados pela diretoria. Para que uma pessoa tenha vontade de participar de um museu, é preciso que ela tenha uma afinidade, uma conexão com a instituição. Um museu apresenta vários fatores que podem influenciar neste processo de identificação: residentes de uma determinada região podem se identificar com um museu por sua localização; outras podem ter uma identidade histórica com o museu. O envolvimento da comunidade deve ser estudado caso a caso.