Notícia

10- Maio - 2011

Educação é missão institucional do museu

                           Museu Paulista da USP - Serviço Educativo

O museu não é um local para guardar coisas ou simplesmente para colocá-las em exposição. O importante é a relação do público com o material que o museu disponibilizar, o acesso qualificado ao acervo. Para saber mais sobre o funcionamento, a importância e como começar um serviço educativo, a Feambra conversou com a educadora e supervisora do Serviço Educativo do Museu Paulista da USP, Denise Cristina Carminatti Peixoto Abeleira.

Feambra: Como começou o Serviço Educativo do Museu Paulista da USP?
Denise Cristina C. P. Abeleira: O Serviço Educativo teve início em novembro de 2001, quando foi possível para o Museu, uma instituição centenária, contratar uma educadora, uma pessoa que se dedicasse integralmente a essa atividade. Embora o museu já tivesse a área de pesquisa e algumas experiências de monitoria em parceria com outras entidades, além de duas publicações, não tinha, até aquele momento, alguém que pensasse no educativo de forma sistemática, contínua. Foi quando me chamaram com o objetivo de traçar os programas de como deveria ser essa interface do museu.

F.: Qual a importância do Educativo em um museu?
D.A.: A educação é missão institucional do museu, é essencial. Não basta disponibilizar o acervo, abrir a exposição. É a relação do público com o material que interessa, é o acesso qualificado a todos, pensando também no público com deficiência. Não ser apenas um espaço expositivo, mas um espaço aberto, acessível, de troca. É preciso compreender quem é o público, por que ele vem, quem não vem. Quando se pensa em abrir um museu, as pessoas não podem perder de vista que a parte educativa é uma missão institucional, sempre oferecendo um acesso qualificado de tudo o que diz respeito ao acervo. O Serviço Educativo é capaz de fazer pesquisas de público, mapear seu perfil, para apontar quais os maiores desafios do museu. Pode ser traçar uma linha para atrair determinado público, que não frequenta tanto a entidade. Saber qual o objetivo das escolas que procuram o museu. Na relação com os professores, por exemplo, é importante sempre incentivá-los a planejar sua visita e conhecer os programas do Museu. É fundamental não parar de dialogar e ter coragem para promover mudanças. Também temos roteiros para visitantes espontâneos, com duração de 30 a 40 minutos, com educador, para um dos quatro temas que trabalhamos no momento. O visitante pode fazer mais de um roteiro no mesmo dia. E temos roteiros especiais para escolas.

F.: Como é feito o trabalho com escolas?
D.A.: Temos as visitas orientadas com a visão de criar certa profundidade, um jeito de alinhavar com o currículo escolar e promover a volta do aluno ao museu para outra das cinco visitas escolares de nossa programação. Pensamos em como fazer a abordagem para cada faixa etária e a possibilidade de aprofundar certas questões. Há muitas ideias erradas sobre a história e sobre o museu. Muitos acham, por exemplo, que D. Pedro morou lá, outros não sabem apresentar a seus alunos a famosa tela 'Independência ou Morte', de Pedro Américo. A história vai além do bem e do mal, há muitas interpretações possíveis. Temos de pensar como colaborar com o professor e de como fazer a abordagem de alunos de diferentes idades.

F.: Existe alguma forma de preparação para o professor?
D.A.: Sempre convidamos os professores que trarão seus alunos em visita para uma oficina introdutória. Nesta oficina, com duração de três horas, transmitimos as principais informações sobre o local da instituição, o local da independência, conhecimentos para entender o Museu Paulista da USP. Depois, caso tenha interesse, ele pode participar de outras oficinas, específicas de cada exposição. Se a escola aceita que a visita seja com nossos educadores, destacamos dois deles para receber uma classe de até 40 alunos. O número é limitado para haver diálogo. Fazemos uma atividade artística, além da visita à exposição, em um total de uma hora e meia. Cada visita pode ter um percurso diferente, o aluno sai com outras opções para futuras visitas. Quando se inscreve para trazer um grupo, o professor recebe uma sugestão de atividade para fazer antes da visita, para sensibilizar o aluno.

F.: Como é a visita ao Museu Paulista para uma criança?
D.A.: Os maiores já têm condições de aprofundar determinadas questões da História e podem aproveitar o museu para essa vivência, para aprender a interpretar um documento, um objeto. Para os pequenos, na faixa dos sete anos, a visita é direcionada para formar uma visão do que é um museu, o que esse tipo de instituição faz e por que precisamos dele.

F.: Como definir o caminho do Serviço Educativo?
D.A.: Cada museu deve estabelecer suas metas. O Educativo deve estar articulado às linhas de pesquisa da instituição e as demais ações de curadoria. Nós fomos estabelecendo programas, baseando-nos em quatro linhas de ação que desenhamos para a interação do museu com o público. Não apenas para estabelecer a relação pessoal com o público, mas também pensando na produção de materiais. No futuro, queremos ter material como os maiores museus do mundo têm. O campo é muito vasto para um serviço educativo: vai desde a produção de gibis, jogos, até o preparo de professores.

F.: Como o Educativo contribui no dia-a-dia do museu?
D.A.: O Educativo contribui de muitas formas, inclusive participa da tomada de decisões. Podemos citar um exemplo de nossa atuação. O Museu Paulista está renovando uma ala. O Educativo propõe coisas para serem discutidas. Neste processo, vamos criar um novo material para o professor, novo material para o público, uma nova oficina. A exposição será inaugurada em maio de 2012, com recursos para torná-la mais acessível a pessoas com deficiência. Este tipo de trabalho de montagem de exposição é feito em conjunto - o museólogo, o curador, o educador. Por exemplo, se o tema é 'Bandeirantes', é preciso decidir qual será a imagem que vai ilustrar cada informação. No nosso caso, o Educativo participou na decisão de se montar uma sala só com telas, sem objetos expositivos, direcionando o 'olhar' para as telas. Ou seja, podemos contribuir com informações úteis de como expor. Com seu trabalho de pesquisa, o Educativo também pode ajudar a atrair público. O Tate Modern (Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Londres), por exemplo, renovou o site para atrair o público jovem. Outra possibilidade é chamar o público e analisar as reações a uma determinada exposição. O importante é o trabalho em equipe.

F.: O que há de errado na imagem que muitos têm do Educativo?
D.A.: Às vezes, o Educativo aparece 'descolado' da direção de algumas instituições. É necessário abandonar aqueles estereótipos de que o Educativo é o que 'cuida de criancinhas' ou de que os educadores são 'enciclopédias ambulantes'. Há grande produção cultural dentro de museus e pouca gente sabe. Há pessoas pensando, escrevendo teses, artigos. A atuação vai muito além de que é só uma complementação à educação formal dada na escola. O conceito moderno é de que o museu deve ser visto para estimular outras habilidades e competências, não só para despejar conteúdos. Há coisas que podem ser melhor apreendidas dentro da sala de aula e outras, no museu. Escola e museu podem ser parceiros, ter projetos juntos.

F.: Quais as metas do departamento?
D.A.: Queremos ampliar as opções para poder oferecer mais roteiros para cada faixa etária. Também almejamos oferecer visitas em outros idiomas e ter alguém com conhecimento em libras para oferecer visitas a deficientes auditivos. Temos recursos táteis para deficientes visuais em alguns lugares, e queremos ter recursos de áudio em cada sala. Nossa idéia é abrir o museu para todos, receber todas as pessoas da melhor maneira possível. Já fazemos oficinas de férias, por exemplo, e tudo é feito para mostrar que o museu é para todos.

F.: Como começar um Serviço Educativo no museu?
D.A.: O mais importante é a conscientização de que Educativo faz parte da razão de ser do museu, que não é um lugar para guardar ou expor coisas. O momento de abertura do Educativo deve ser o da criação do museu. O diálogo com a comunidade se dá pelo Serviço Educativo. O ideal é lutar para ter um corpo especializado, mas, quando ou enquanto isso não é possível, o museu pode começar com parcerias. Muitas vezes, o museu não tem uma equipe, mas precisa de serviços especializados, como documentação, restauração, além do educativo. É importante sensibilizar o governo, a sociedade, para que o museu tenha pessoas especializadas nestas atividades. Para os serviços em que não tiver, pode trabalhar com parcerias. O museu deve procurar realizar ações com foco, ver seu tema e desenvolver atividades para o público que quer atingir - estudantes de ensino fundamental, terceira idade, professores são alguns exemplos. É preciso ter flexibilidade no início e ter sempre em vista o que é o ideal. O museu pode promover atividades para crianças, até nas férias, com oficinas, brincadeiras. Outra possibilidade é entrar em contato com museus maiores para pedir dicas, fazer um estágio, analisar a viabilidade de ter estagiários de universidades próximas. É importante, também, tentar produzir algum material, um áudio-guia, por exemplo. Não é preciso que seja nada muito complexo.

F.: Qual a importância da Associação de Amigos do museu?
D.A.: A Associação de Amigos pode ser um canal de entrada das pessoas que podem doar seu tempo para o museu. Muitos museus fazem um atendimento primoroso à Terceira Idade, como o Museu de América, em Madri (Espanha), por exemplo. Os Amigos do Museu podem trazer contribuições importantes para a entidade, porque, muitas vezes, o museu não assume certas atividades por falta de equipe. O atendimento ao público é uma delas. Sob orientação da instituição, pessoas da comunidade podem receber treinamento e doar seu tempo e experiência. É importante montar um grupo de Amigos com regras bem estabelecidas, critérios e metas. Temos de aprender com experiências de voluntários de outras áreas. Os museus estão a serviço da sociedade e, se não promovem essa interação, não têm porque continuar.

Para outras informações, acesse www.mp.usp.br
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E-mail: serveduc@usp.br
Telefone: (11) 2065-8053