Notícia

26- Dezembro - 2013

Exclusivo: Feambra entrevista o presidente do ICOM

 

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Para começar 2014 com chave de ouro, a Feambra conversou com o Prof. Dr. Hans-Martin Hinz, presidente do Conselho Internacional de Museus  (International Council of Museums - ICOM). O entrevistado fala da importância dos voluntários, que podem ser valiosos recursos para apoiar os profissionais de museus. Leia a entrevista:

Feambra: Quais são as maiores dificuldades com que se defrontam os museus atualmente? Quais são as propostas do ICOM para fazer frente a esses novos desafios? 

Prof. Dr. Hinz: Os três maiores desafios dos museus contemporâneos incluem: a necessidade de atrair novo público e manter-se atualizado sobre as tendências atuais, a proteção do patrimônio cultural em áreas instáveis do mundo e as dificuldades financeiras decorrentes da crise econômica.

Para que os museus cumpram seus papéis como locais de encontro, de diálogo e de troca, eles devem continuar a atrair novos públicos e utilizar novas tecnologias para se manterem em evidência na era digital. O Museo Tridentino di Scienze Naturali em Trento, Itália, é um bom exemplo de um museu que foi capaz de atrair um novo público por meio da criação de exposições interativas e da organização de festas e outros eventos direcionados aos jovens. Fazendo estas mudanças, os visitantes adolescentes do museu aumentaram de 4%, em 2007, para 19%, em 2010. Muitos museus também usam a tecnologia para alcançar novos públicos e modernizar suas exposições. Smartphones e aplicações de tablet estão substituindo gradualmente os guias de áudio tradicionais e catálogos em muitas instituições, e as coleções digitalizadas, a comunicação pela web e o uso de redes sociais estão se tornando cada vez mais comum.

Muitos comitês internacionais do ICOM, incluindo o Comitê Internacional de Educação e Ação Cultural (CECA) e o Comitê Internacional do ICOM para Audiovisual e Novas Tecnologias da Imagem e do Som (AVICOM) desenvolvem programas que ajudam os museus a alcançar novos públicos e utilizar novas tecnologias.

Em tempos de instabilidade, quer seja causado por desastres naturais ou conflitos sociais, o patrimônio cultural está em risco de saques e de tráfico. A fim de proteger os patrimônios em áreas de conflito, o ICOM cria Listas Vermelhas que relacionam tipos de objetos culturais que são vulneráveis ​​ao tráfico. Estas listas ajudam a se prevenir contra o tráfico informando agentes, peritos em patrimônio, comerciantes de arte e casas de leilão sobre quais objetos não devem ser comercializados. Até agora, o ICOM publicou 13 dessas listas para países ao redor do mundo, a mais recente sendo uma Lista Vermelha para a Síria. O ICOM também monitora o estado do patrimônio cultural em países que estão sofrendo instabilidades e participa da repatriação de bens culturais por meio de nosso Programa de Mediação.

Os museus são propulsores do desenvolvimento social e econômico e, mesmo em tempos de dificuldade financeira, eles devem ser tratados como tal. No entanto, muitos museus em países afetados pela crise econômica estão enfrentando dificuldades financeiras. Alguns tiveram que fazer grandes cortes administrativos, enquanto outros foram forçados a fechar suas portas. Uma resolução foi aprovada na 28ª Assembleia Geral do ICOM no Rio de Janeiro em agosto passado, visando resolver esta questão. Exigem a implementação de uma campanha para o desenvolvimento sustentável dos museus e a salvaguarda dos acervos, em colaboração com os Comitês, Alianças e outros órgãos e parceiros do ICOM. Nós também planejamos assumir a liderança estratégica na elaboração das Metas de Desenvolvimento Sustentável para assegurar que os museus se situem na Agenda de Desenvolvimento pós-2015.

Feambra : Qual a importância que o senhor atribui aos voluntários em sua ajuda na consecução dos objetivos dos museus?

Prof. Dr. Hinz: Dada a drástica redução nos orçamentos de museus devido à crise econômica global, o voluntariado é mais importante do que nunca. Em muitos países, o voluntariado está firmemente arraigado na cultura ou religião, enquanto em outros está apenas começando a surgir. No ocidente, o conceito está difundido e os voluntários desempenham um papel central em todas as áreas da sociedade civil, incluindo museus. No entanto, o papel dos voluntários nem sempre é bem compreendido pelos profissionais em toda parte. Deve ficar claro que voluntários não se destinam a substituir os profissionais e não devem ser vistos como ameaças. No entanto, eles podem ser um valioso recurso para apoiar os profissionais na realização das suas tarefas e responsabilidades.

Feambra: Como os museus podem otimizar o seu trabalho com os voluntários ?

Prof. Dr. Hinz: Há continuamente um forte interesse no trabalho voluntário, mas o maior desafio está em manter pessoas. A fim de aproveitar ao máximo o tempo de voluntariado, os museus devem treinar voluntários e oferecer oportunidades para aqueles que estão procurando começar uma carreira na área de museu. Também é importante diversificar as tarefas para que os voluntários possam participar de oportunidades em todos os setores do museu, sempre que possível. Podem ser atribuídas tarefas que vão desde assumir controle, visitas guiadas e conduzir sessões de manuseio de objetos destinados à pesquisa para exposições, catalogação, arquivamento de objetos e outros. Finalmente, é essencial considerar o retorno (feedback) do voluntário. Eles podem sugerir melhorias para ajudar a desenvolver e despertar a experiência do visitante e pedir sua opinião, o que permite aos voluntários a oportunidade de serem ouvidos quanto à maneira pela qual novos procedimentos e práticas serão implementadas futuramente.

Muitos museus não poderiam existir sem a ajuda de seus voluntários. Por isso é muito importante assegurar que o trabalho voluntário seja maximizado para o seu pleno potencial e que os voluntários sejam bem integrados nos procedimentos do museu.

Feambra: Por favor, fale a respeito da escolha do Rio de Janeiro como o local para a Conferência Geral do ICOM em agosto de 2013.

Prof. Dr. Hinz: A 23ª Conferência Geral no Rio representou uma oportunidade de fortalecer a presença do ICOM não somente no Brasil, mas em toda a região, reunindo profissionais de museus em toda a América Latina e ao redor do mundo para discutir o futuro de nosso segmento. Ademais, a abertura de diversos, novos e interessantes museus no Rio de Janeiro torna a cidade um lugar inspirador para profissionais de museus ao redor do mundo. A Conferência Geral foi uma ótima oportunidade para estreitar contatos com parceiros locais no âmbito do patrimônio histórico e cultural. Nós esperamos continuar com essa frutuosa colaboração.

Feambra: Como o ICOM e a WFFM podem trabalhar juntos em nome do mundo dos museus?

Prof. Dr. Hinz: O ICOM e a WFFM compartilham muitos objetivos comuns, incluindo o melhoramento dos museus e a proteção do patrimônio cultural, a promoção da cooperação internacional no mundo dos museus e a importância do desenvolvimento de parcerias entre profissionais de museus, amigos e voluntários.

 

Durante a Conferência Geral do ICOM realizada em agosto de 2013, o ICOM e a WFFM renovaram nosso Memorando de Entendimento de 2010, que delinearam os detalhes da nossa parceria. Trabalhamos juntos em uma ampla gama de atividades e programas para o público do museu e também compartilhamos conhecimentos e informações. Estou confiante de que esta parceria vai continuar a nos ajudar a fornecer o melhor apoio possível para museus de todo o mundo, visando promover a preservação do patrimônio cultural.