Notícia

10- Setetembro - 2014

Diretora do MHN – RJ recomenda: criem suas associações de amigos

 

A Feambra conversou com Vera Lúcia Bottrel Tostes, diretora do Museu Histórico Nacional, localizado na cidade do Rio de Janeiro (RJ), que tem uma das mais antigas associações de amigos do Brasil. Com toda a autoridade de quem tem sua experiência, recomenda aos museus: “criem suas associações de amigos, sem receio”! Leia aqui a entrevista exclusiva:

Feambra: Como começou a Associação dos Amigos do Museu Histórico Nacional? 

Vera Tostes: Duas situações favoreceram a criação da associação em nosso museu. A primeira foi uma visita oficial da diretoria a museus nos Estados Unidos. Lá, viram como essas associações funcionavam e os benefícios que levavam aos museus. A segunda foi a crise econômica que assolava o Brasil à época. As primeiras reuniões para entender como se organizar, como eram os procedimentos de uma associação, foram feitas em 1986, quando as questões orçamentárias estavam muito comprometidas. A diretoria entendeu que fazia muita falta um aporte financeiro mais constante e que seria possível e bom contar com o apoio da sociedade.  

F.: Qual é a atuação da associação? 

 V.T.: Ela é muito ativa, dá entrada em projetos com incentivo fiscal, contribui na manutenção do museu, na aquisição de acervos, colabora na capacitação de funcionários (possibilitando, por exemplo, a participação em congressos). Há uma reunião anual em que o museu apresenta seus projetos para aquele ano e em quais deles espera o apoio da associação de amigos. Depois disso, a associação se reúne mensalmente, sempre com a presença de alguém da diretoria ou mesmo de um funcionário para que haja essa relação harmoniosa, de colaboração, de envolvimento. Além de ter sua contabilidade própria, a associação ainda tem suas contas auditadas anualmente. Isso é uma recomendação: todo diretor de museu deve exigir uma auditoria independente, profissional. Isso deve fazer parte dessa engrenagem.  

F.: Como começar uma associação de amigos? 

V.T.: Primeiramente, é muito bom que o museu tenha sua associação de amigos. Eu diria a todos os diretores que criem suas associações, sem receio. O guia feito pela Feambra (clique aqui para acessar o Guia para Criação e Gestão de Associações de Amigos de Museus) foi muito bom. Para começar, o diretor pode convidar pessoas da sua cidade, de sua região, que ele saiba que tenham sensibilidade para participar e colaborar com a instituição. Se pudesse sugerir, é sempre positivo ter na associação um advogado, um economista, um empresário ou banqueiro, para colaborar com seus conhecimentos. A partir daí, o estatuto da associação vai definir diretrizes, vai estabelecer a duração do mandato da diretoria. Também é importante divulgar amplamente este trabalho, para que todas as pessoas da região saibam que podem e devem ser membros, participar das assembleias, trazer ideias. Para concluir, é fundamental haver respeito entre o museu e a associação. 

F.: Como essa questão dos amigos de museus era vista no exterior? 

V.T.: Sabemos que as primeiras iniciativas parecem ter começado na Bélgica, mas entendo que foi efetivamente nos Estados Unidos, depois da Primeira Guerra Mundial e mais ainda depois da Segunda Guerra Mundial, que essas associações passaram a ter mais relevância. Isso porque nos EUA os museus eram privados e, por isso, precisavam mais do apoio da sociedade. Já na Europa os museus eram, em sua maioria, públicos. De qualquer forma, tanto nos EUA quanto na Europa a consciência de participar do museu, de visitá-lo, já era muito presente, só depois se implantou a ideia de que também era possível e necessário ajudar financeiramente o museu. Aqui parece que ocorreu o contrário: além de ser algo bem mais recente, o conceito de contribuir com recursos para o museu veio antes do envolvimento afetivo com ele. Com as pessoas jurídicas é diferente: lá as empresas sempre ajudaram e aqui isso ainda é incipiente, tem muito a crescer. 

F.: Ainda há muitas pessoas que veem os amigos de museus relacionados apenas com a doação de dinheiro. Isso é correto? 

V.T.: Não, sua atuação é bem mais ampla. Participar abrange diversas outras formas de envolvimento. Há amigos que ajudam com a doação de materiais, com bolsas para a capacitação de funcionários, auxílio com viagens, não só para trazer conhecimento, mas também para ensinar, levar ao exterior o que o Brasil faz. Há muitas possibilidades. Seria ótimo se uma indústria química, por exemplo, criasse produtos para restauro próprios para o nosso clima. Eles poderiam ser exportados para outros de clima semelhante. Isso não existe hoje, utilizamos produtos criados para outras condições climáticas, diferentes das nossas.