Notícia

05- Maio - 2015

Entrevista: Maria Ignez M. Franco, presidente do ICOMBrasil

 

A Feambra conversa com Maria Ignez Mantovani Franco, presidente do ICOMBrasil, sobre os museus e o momento de crise no País. Confira a entrevista exclusiva:

 

1.Quais as principais dificuldades dos museus brasileiros diante da crise político econômica que afeta o País?

MI – Creio que a crise político-econômica é real e os museus estão sendo chamados a se reinventar neste novo contexto. São múltiplas as dificuldades que os museus estão enfrentando, mas podemos destacar algumas delas. Em primeiro lugar precisamos considerar os cortes orçamentários sofridos especialmente neste ano, pelos museus que dependem diretamente dos governos, sejam eles federal, estaduais ou municipais. Temos visto recentemente que os cortes tiveram maior impacto nas verbas anuais de custeio dos museus. Outro ponto relevante é que há também, concomitantemente, um decréscimo significativo da atividade econômica no País, o que obriga as empresas a serem mais ortodoxas e restritivas no patrocínio de projetos e programas, quer seja por meio de apoio direto ou via renúncia fiscal (Lei Rouanet, ICMS, PROAC, entre outros). Temos assistido neste momento um esforço dos museus brasileiros em otimizar recursos, reduzir gastos, o que implica muitas vezes, infelizmente, em diminuição de pessoal e corte ou redução da abrangência de seus projetos e programas.

 

2. O que podemos observar no cenário brasileiro, em termos de medidas adotadas pelos museus para minimizar os efeitos trazidos pelo atual panorama?

MI – Talvez o que esteja ocorrendo de mais proativo no cenário museal brasileiro neste momento seja o esforço de nossos museus de não se abaterem diante da crise e procurar soluções inovadoras para superar este momento. Quando falo que os museus estão sendo chamados a se reinventar neste novo contexto, quero me referir a uma capacidade que nossos museus têm, diferentemente de instituições de alguns outros países, no sentido de busca de superação e de inovação. Historicamente nossos museus sempre enfrentaram dificuldades e desenvolveram estratégias importantes não só de sobrevida, como também de evolução nos seus mais diversos programas. Uma das medidas que os museus têm adotado é refletir internamente, revendo visão, missão, objetivos e metas de curto, médio e longo prazos. O momento de crise é também um momento de oportunidades e creio que os museus brasileiros estão implementando seus planos museológicos, programas de melhoria de gestão, novas estratégias de sustentabilidade e busca incessante de novas formas de interação, compartilhamento e cooperação, em diferentes direções e dinâmicas institucionais.

  

3. Quais ações (daqui ou do exterior) podem ser aplicadas a outros museus para auxiliá-los em momentos de maior dificuldade econômica?

MI – Creio que não existam fórmulas prontas e nem modelos nacionais ou internacionais a serem seguidos. Sugiro, isto sim, que os museus façam um exercício real para conhecer suas potencialidades e fraquezas. Em momentos de crise como este, cabe a cada museu se conscientizar de suas múltiplas potencialidades e saber explorá-las proativamente; por outro lado, o museu deve ainda reconhecer suas fraquezas para que possa se concentrar em superá-las. De nada adianta assumir um atitude passiva , como se não coubesse ao museu e a sua equipe a liderança e a  gestão da própria crise.

Enfim as soluções esperadas devem surgir dentro da própria instituição, de suas forças e capacidades em superar adversidades. Talvez uma recomendação possa fazer sentido para alguns museus, ou seja, a superação da crise está ligada à capacidade de coesão interna e de estabelecer novas relações e sinergias, novas formas de articulação e de viabilização de nossos museus. Por outro lado, saber valorizar suas potencialidades, como por exemplo, um fabuloso acervo que possa ser melhor aproveitado em exposições circulantes, um serviço educativo de qualidade que possa desenvolver ações extra muros, fundos de pesquisas que possam gerar projetos e obter recursos de outras áreas análogas, como ciência, tecnologia ou meio ambiente, entre outros. Só para dar um exemplo inspiracional de conjuntos de museus que conseguiram inovar em momentos de crise, proponho que possamos nos lembrar da verdadeira reinvenção ou mesmo metamorfose produzida pelos museus britânicos e franceses, nas duas últimas décadas, quando os respectivos estados francês e inglês reduziram significativamente suas subvenções aos museus. É importante registrar que tal período, que poderia ter sido danoso aos museus, foi marcado por um esforço de superação e inovação sem precedentes, dinâmica esta que foi assimilada pelos museus e persiste até nossos dias.

 

 

4. Qual a importância da criação e do fortalecimento das associações de amigos de museus nesse contexto? Como essas entidades podem auxiliar os museus na consecução de seus objetivos?

MI – A importância das associações de amigos junto aos museus é bastante grande, a qualquer tempo, mas certamente do ponto de vista estratégico, no momento de crise,  esta interação deve ser potencializada. As formas de interdependência entre ambos variam muito, ou seja, seria impensável procurar estabelecer um modus operandi único. No entanto, creio ser possível apontar alguns aspectos salutares desta relação. Em primeiro lugar a necessidade de definir posições de forma clara e transparente, tornando a associação de amigos e o seu respectivo museu, instituições em estado de cooperação permanente, interagindo na luta por objetivos comuns. Por outro lado há que se fazer um esforço para transformar o museu numa grande causa, passível de ser abraçada pela sociedade de forma integradora. Alargar fronteiras de parcerias, encontrar distintos papéis para que diferentes atores sociais possam ter protagonismo, estruturar um programa de voluntariado, apurar o discurso para atrair e envolver jovens, potencializar pontes e parcerias com a educação em amplo espectro, são algumas das estratégias que podem ser lembradas.