Notícia

28- Fevereiro - 2018

Preconceito fez mulheres artistas permanecerem no anonimato

 

 

No mês das mulheres, a Feambra entrevista o artista plástico Walter Miranda, responsável por ministrar o curso “Mulheres Pintoras Através dos Tempos”.  Profissional há 40 anos, Miranda já participou de mais de cem exposições no Brasil e no exterior, recebendo 21 prêmios por sua participação em salões de arte. É professor de desenho, aquarela, pastel, nanquim, figura humana e pintura em seu ateliê desde 1996.

Feambra - Qual o principal objetivo do curso?

Walter Miranda - O curso mostrará que as pintoras sempre estiveram presentes ao longo da história da arte, mas pouco mencionadas nos livros. Mulheres que sofreram os preconceitos da sociedade pelo seu gênero e por sua opção de trabalho. 

Expor o trabalho dessas mulheres ajuda a reparar seu anonimato artístico e impedir a perpetuação do desconhecimento público de suas atividades.

São mulheres brilhantes geralmente esquecidas pela história oficial, mas cuja atividade possui registro por meio de biografias, escritos e obras de arte. 

Em outras palavras, mestras na arte e no ofício de pintar sempre existiram. Excelentes artistas com obras expressivas foram deixadas à parte por sexismo.

F - Conte-nos um pouco sobre o conteúdo das aulas.

WM - As duas aulas foram divididas em quatro etapas, abordando a atividade das pintoras da seguinte maneira:

A importância da mulher na Pré-história e pintoras na Grécia antiga

Idade Média

Renascimento

Séculos XVII ao XX

F- Ainda existe preconceito contra as mulheres na arte?

WM - Sem dúvida alguma, da mesma forma que nas demais áreas da atividade humana.

F - O que as mulheres costumavam fazer para que pudessem continuar com o ofício mesmo sofrendo pressão da sociedade?

WM - Depende muito da época e de cada cultura. Por exemplo, Plínio, O Velho (23-79), em sua obra “História Natural”, relata que a pintora grega Timarete (ca. 400 a.C-500 a.C) desprezou as tarefas do lar para seguir a mesma profissão do pai, que era pintor.

Existem casos de pintoras que permaneceram solteiras a vida toda para não se submeterem ao subjugo do lar que as impediria de pintar.

Entretanto, a grande maioria sempre tentou convencer a sociedade de sua época sobre sua capacidade profissional. As que conseguiram tinham um talento excepcional, o que propiciava o seu reconhecimento social como artista. Mas, mesmo assim, muitas foram exploradas. Artemísia Gentileschi, por exemplo, teve um dos seus desenhos roubados, como ela mesma relata:

'Eu jurei solenemente nunca mais enviar meus desenhos porque pessoas me enganaram. Em particular, hoje eu descobri que, tendo feito um desenho de almas no Purgatório para o Bispo de São Gata, ele, para gastar menos, encomendou outro pintor para fazer a pintura usando meu trabalho. Se eu fosse um homem, não posso imaginar que teria acontecido assim'.

 F - Existiram mulheres que esconderam seus nomes para poder divulgar a sua arte?

WM - Muitas mulheres costumavam assinar apenas o sobrenome para escapar da distinção entre gêneros.

Lenore 'Lee' Krassner (1908 – 1984), pintora norte americana de estilo expressionismo abstrato, fazia questão de esconder que foi esposa de Jackson Pollock. Durante os anos 1940 e 1950 assinava apenas como L.K.

 F – Existiu alguma mulher que foi símbolo desta luta contra o preconceito nas artes?

WM - Todas sempre tiveram que lutar para obter reconhecimento profissional, mas nenhuma se tornou símbolo. 

Sempre foi muito difícil para as mulheres se reunirem para lutar por causas sociais. Por isso, seria impossível a elas se reunir para obter reconhecimento profissional, visto que até o século 20 elas sempre estiveram sozinhas, sem outras mulheres artistas para compartilhar seus anseios e necessidades.

 F - Poderia citar algumas que ficaram no anonimato e que devem agora ser reconhecidas como grandes artistas de seu tempo?

WM - Precisaria pensar mais a respeito, porque as mulheres artistas que se sobressaíram deixaram sua história registrada de alguma forma. É certo que não são conhecidas da mesma forma que artistas homens e precisamos levar ao público a história delas. Mas certamente nunca teremos conhecimento, por total anonimato, de muitas outras mulheres cujo registro de suas atividades artísticas (se é que houve) não chegou até nós.

Mas cito uma artista cujo nome me ocorre no momento: Abigail de Andrade (1864 - 1890). Pintora brasileira, que viveu de seu trabalho artístico na segunda metade do século XIX.