Em Foco

03- Julho - 2018

Mulheres nas artes através dos tempos

 

Por Walter Miranda* 

 

Se olhar à sua frente, elas estarão lá. Olhou para o lado direito? Esquerdo? Atrás? Sim, elas sempre estiveram, estão e estarão lá. É melhor se acostumar! 


Caso não tenha percebido, estou falando das nossas eternas companheiras, as mulheres. Elas são chamadas de sexo frágil, mas plagiando o querido Erasmo Carlos: “eu que faço parte da rotina de uma delas sei que a força está com elas”. 


Está certo, quando é preciso abrir a tampa de um vidro de palmito elas nos chamam, mas a força delas é mais poderosa por ser sutil, quase imperceptível. A não ser quando alguém provoca sua ira. Aí, é melhor sair de perto. Mas estou falando da força do convencimento (elas falam até pelos cotovelos), da persistência, da resiliência daquelas que dobram, mas não quebram. 


Ou seja, elas estão e sempre estiveram presentes em nossas vidas. Muitas vezes operam em silêncio e com delicadeza, mesmo não sendo valorizadas como merecem. 


Acho que, em geral e sem perceber, os homens têm medo delas. Há muito tempo se tenta controlá-las, obrigá-las a seguir parâmetros sociais determinados pelos homens. Basta ler a Bíblia para vermos os aconselhamentos dados a elas. Mesmo na Grécia antiga, país que inventou a democracia, elas eram proibidas de votar. 


Apesar das diversas tentativas de apagá-las da história, elas sempre estiveram presentes. Se quase não as encontramos nos livros oficiais, quem pesquisa os documentos antigos, vê registros de grandes mulheres que alteraram o curso da história humana. Muitas foram apagadas dos registros oficiais ou tiveram sua história pessoal alterada. Caso clássico da cultura ocidental é o de Maria Madalena, cujo evangelho foi tornado gnóstico¹ e fez com que ela fosse confundida com uma pecadora no Novo Testamento. Entre tantas outras, também é possível citar a rainha egípcia Hatshepsut², cuja existência sofreu a tentativa de ser apagada da história por seu sucessor, mas a enorme quantidade de obras e templos deixados por ela possibilitou o resgate de seu legado. 


No mundo das artes elas também sempre existiram, mas nas escolas tradicionais ou mesmo de arte raramente se fala de artistas mulheres quando são mencionados artistas importantes ao longo da história da humanidade, pelo menos até o século XIX. É certo que ao longo do tempo houve alguns historiadores que prestaram atenção em sua importância e registraram em livros seus nomes e atividades, mas são livros ignorados pelas culturas moderna e contemporânea. Somente a partir da segunda metade do século XIX é que elas passaram a ter reconhecimento no meio artístico, mas, ainda assim, sofrendo grande preconceito social e cultural. 


Sou artista plástico desde 1976 e somente em meados dos anos 1980 percebi a presença delas na história das artes. Estava em Washington e tive a oportunidade de visitar o “National Museum of Women in the Arts” (Museu Nacional de Mulheres nas Artes). Sim, existe pelo menos um museu em homenagem a elas. Só então percebi que alguma coisa estava errada no que havia aprendido pelos livros clássicos de história da arte. Daí em diante passei a pesquisar sobre a atividade delas e fiquei impressionado com a quantidade de artistas mulheres que lutaram para mostrar seus trabalhos de alta qualidade e, ao mesmo tempo, o empenho delas para serem respeitadas em um meio cultural extremamente machista. Fiquei apaixonado pelo tema e fui comprando os parcos livros que encontrei pela frente (escritos nos séculos XIX e XX) ou lendo e copiando os que não pude comprar (escritos em séculos anteriores). 

Depois de tantos anos, me senti encorajado a dar alguns cursos rápidos sobre esse apaixonante tema: a participação das mulheres no campo das artes plásticas. 


Assim, a convite da Feambra, me atrevo a escrever resumidamente, em alguns capítulos a serem publicados periodicamente, sobre a participação histórica da mulher no universo das artes plásticas desde sempre. Sim, desde sempre, pois desde o início daquilo que chamamos de cultura, elas marcaram forte e constante presença no meio artístico e social. Uma recente teoria indica que mesmo na Pré-história as mulheres já se manifestavam artisticamente. De acordo com essa teoria, boa parte das pinturas rupestres cujas assinaturas eram feitas com a silhueta das mãos, foi feita por mãos femininas. Ao que parece, a relação entre o tamanho dos dedos das mãos masculinas e femininas é diferente e as marcas deixadas por elas nas cavernas servem como comprovação de sua autoria³


Também há que se considerar a importância feminina ainda na Pré-história pela quantidade de deusas encontradas por arqueólogos em sítios milenares na forma de esculturas em argila, marfim ou pedra. 


Caso especial é a “Grande Mãe”, que mais tarde seria chamada a deusa “Cibele” pela cultura greco-romana e que permeou a mitologia ocidental passando pela Idade Média, Renascimento e, ainda hoje, continua se fazendo presente em monumentos públicos de vários países. Cibele sempre é retratada como uma deusa ou rainha sentada em um trono e acompanhada por dois leões. 


No próximo capítulo abordarei a participação da mulher nas Artes durante a Antiguidade e a Idade Média. Até lá!


* Walter Miranda é Artista Plástico e professor (www.fwmartes.com.br). Atual presidente da APAP - Associação Profissional de Artistas Plásticos de São Paulo


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